domingo, 18 de novembro de 2007

Mulheres que orgulham a Paraíba


Isabel da Loca, essa mulher é rocha


Ao longe descortina-se a bucólica paisagem esculpida em rocha bruta. Os cactos formando pastos nas poucas manchas de solo apertadas entre os rochedos gigantescas e multiformes. Algumas dessas pedras gigantescas, de traços figurativos, parecem balançar ao vento, curvando-se ameaçadoramente sobre o teto das toscas casas. Morando sob um desses imensos monolitos, a maestrina e tocadora de pífano Isabel da Loca, participante do Fórum Mundial Cultural, e do alto de seu metro e cinquenta e oitenta anos, é ilustre convidada para apresentar sua arte em eventos musicais da Europa. Na mesa dessa extraordinária figura humana, apenas meio pacote de fubá e um jerimum ainda verde, para toda a família: Isabel, o filho e os netos. É assim que o Brasil incentiva a cultura.

Com filhos e netos, Isabel vive numa loca, onde come dorme e toca o instrumento de sopro.
Na entrada da toca um pequeno e magro cachorro de olhar perdido, mal abre os olhos diante dos visitantes, os turistas sertanejos. Na cozinha, os mantimentos resumem-se a meio pacote de fubá e um jerimum ainda verde sobre a mesa nua.
Zabé da Loca, como é conhecida, tem 73 anos dedicados à arte musical ? o irmão lhe ensinou a tocar pífano aos sete anos, em Buíque, sua terra natal, no estado de Pernambuco. Recentemente, Isabel gravou um CD, com cantorias que fazem parte do acervo folclórico regional, onde toca e canta acompanhada dos músicos da Serra da Matarina, no Município de Prata, nos Cariris Paraibanos.
O canto de Zabé é mais um sussurrro, daqueles que vivem entrincheirados vendo a vida passar lá fora, e os de fora pouco se importando com os que estão alí dentro, da rocha. É isso mesmo, Isabel parece ter vivido tempos geológicos na idade da pedra. Foram necessários dezenas de anos para que o talento de Zabé fosse reconhecido.

? Ò de casa, ó de fora
Maria vai vê quem é,
Maria vai vê quem é...
É os cantadô de rei
È os cantadô de rei
Quem mandô foi São José
Quem mandô foi São José. ?

Além do Bendito São José, Isabé e Banda registraram no CD verdadeiras pérolas do canto popular, como a Briga do Cachorro com a onça, Pifada na loca, Alvorada de todos os santos, Meu loro dê cá o pé, e outros.
Não para a humanidade, mas para o Brasil é somente isso.
Mesmo com tanto incentivo à cultura, lei rouanet, e não sei mais o quê, Zabé, a maestrina da Serra da Matarina, jaz no encanto de seu canto na toca sem fronteiras. Como ela mesma diz: ?Imersa no mundo animal, bem melhor que o dos homens, entre cobras e lagartos?.

Tem fé em Deus Zabé, a justiça divina tarda mas não falta, breve você será chamada para animar os bailes celestiais.

Texto: Giovanni Seabra
Foto: Marcus Russo

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